Expedido termo de guarda

Um momento intenso, primeiro passo para eu ser adotado como papai por uma criança de oito anos. E como um início tão vibrante pode ser representado por uma frase tão fria? 

Por Arno Duarte

Uma segunda-feira normal de dezembro, como tantas, vida que segue, trabalho, reuniões, e um telefonema: “olha teu e-mail agora, o status mudou”! Era a Taís, minha eterna namorada, sobre o processo de pedido de guarda do Cadu, um menino que apadrinhamos há um ano. Não foi de uma hora para a outra, mas é inesperado de qualquer jeito. Talvez não exista o momento perfeito para avisarem: “expedido termo de guarda”. Só é expedido! Frio assim, um suave chacoalhar na realidade.

O que eu sinto é calor humano, sensação de que o coração não cabe dentro do peito. Borboletas voam pelo estômago, um descompasso da língua embaralha as palavras, os pensamentos viajam para o passado e futuro e é inevitável o congelamento das bochechas em um sorriso que não se desfaz nem para dormir.

A partir daí a vontade de contar para todo mundo fica presa no receio de que tudo aquilo de bom que está acontecendo seja um sonho que pode ser desperto. Mas o medo evapora na alegria de ver os amigos celebrarem junto, de ouvir teus sobrinhos felizes comemorarem com gritinhos a chegada do novo primo, dos avós bestas planejando como será quando forem chamados de avós.

Emoções se misturam com a expectativa de saber quando o menino vai receber a notícia, se vai gostar, se vai chorar, se vai querer me ver com urgência ou se vai precisar de um tempo para absorver a ideia. Medos infundados, talvez cagaço em função da responsabilidade que chega, por uma vida a mais na minha vida, por um amor maior para amar sem limites.

Será que dou conta? Claro que sim, já nasci pronto para isso. A verdade é que eu sempre soube que estava pronto para ser pai de um filho de coração.

A vida vai mudar. Já mudou quando conheci o ruivinho de olhos verdes, tão especial que já é a minha cara. E a vida vai mudar ainda mais quando eu conseguir soltar todo o choro de felicidade dentro de mim, quando eu ouvir um singelo “pai” ou quando eu conseguir dizer “filho” sem me preocupar se posso ou devo me referir a ele assim.

Foi expedido o termo de amor. Aliás, acho que este deveria ser o nome do documento. Mas dane-se as formalidades, o amor está nos detalhes, nas entrelinhas, nas letras miúdas, invisíveis a olho nu. Pai é quem ama, e eu estou amando esta nova porta para a vida, uma oportunidade de ser inspirado a ser o meu melhor pelo carinha que eu deveria inspirar.

Um novo ciclo se inicia, transformações, descobertas, parceria, amizade. E nem se passaram 24 horas daquela segunda-feira tão normal de dezembro. Imagina o que mais me espera como papai adotivo tendo uma vida inteira pela frente para celebrar.


ARNO DUARTE, além de papai adotivo, é coach e consultor organizacional na Favoo Desenvolvimento Humano e mobilizador do movimento Geração Mais Amor. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.

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