Meu primeiro encontro com a raiva

Artigo publicado no jornal “O Rebelde”, do Namastê, centro de meditações ativas e bioenergética, edição de março de 2015.

Lembro-me, como se fosse hoje, da primeira vez que encontrei verdadeiramente com a raiva. Você pode se perguntar: como assim primeiro encontro, se sentimos raiva o tempo todo? Deixa eu te contar então a minha história.

Por Arno Duarte

Alguns anos atrás, em um trabalho de terapia, um amigo me disse: “você é como uma caixa d’água cheia de raiva, e o que você coloca pra fora é apenas o que foge pelo ladrão”. Eu não entendi direito aquelas palavras, pois achava que eu era um cara que sentia raiva. Somente com o tempo é que fui entender melhor o que se passava comigo.

A raiva é o sentimento mais primitivo do ser humano. Sem ela, ao nascer, nem mesmo respiraríamos. A criança sabe como expressar sua raiva, e faz isso com naturalidade, mas na medida em que crescemos, vamos sendo limitados neste sentimento, e nos adequamos ao que é conveniente ao externo, para sermos aceitos principalmente por nossos pais. Podem pensar que é papo terapêutico, e tal, mas se pergunte: com qual emoção atuando em seu corpo você se sentiu mais poderoso para mudar uma situação que não estava lhe fazendo bem?

Pois, a situação que não estava me fazendo bem era a minha dureza, como se eu vivesse acuado, me protegendo de alguma coisa que poderia acontecer, de algo que poderia me ferir, e que eu nem sabia direito o que era. Essa proteção me afastava das pessoas, e evitar o contato foi a saída que eu encontrei durante a vida para não lidar com aquela raiva acumulada ao longo de tantos anos de repressão. Eu não sabia como gerenciar aquilo, e me assustava quando conectava com aquela emoção primal. O medo era de ficar descontrolado, de machucar alguém, não só fisicamente, mas até com palavras. Eu não queria sentir aquilo. Só que não sentindo raiva eu também deixava de sentir as outras emoções. Eu vivia congelado.

E foi no primeiro encontro real com a minha raiva que tive certeza de que algo havia mudado dentro de mim. E não estou falando daquele pouquinho que saía pelo ladrão. Falo de todo o volume da caixa d’água. Por alguns minutos, que pareceram horas, me permiti sentir toda a raiva possível em meu corpo, e expressá-la sem cortes, sem julgamentos, sem castração, sem controle. Foi como se eu tivesse me transformado no incrível Hulk. O cara pacato que tinha um monstro por dentro, pronto para explodir a qualquer instante. Explodi, coloquei pra fora toda a repressão que transformou minha raiva em ódio. Ao cruzar esta fronteira temida, foi como se a caixa d’água tivesse se esvaziado por completo.

Esse movimento de aceitar a raiva como algo natural abriu espaço para outros sentimentos. Hoje, consigo ver que derrubei uma muralha que cercava o meu coração. A raiva estava disfarçada de armadura, que envolvia os meus sentimentos mais tenros, mais amorosos, mais lindos. A raiva que eu sentia, mas não expressava, me prendia em amarras invisíveis, que controlavam todos os meus sentimentos. Ao mesmo tempo em que eu não expressava aquela raiva, eu também não expressava o meu amor.

Passei a gostar de mim, voltei para o meu corpo, perdi muito peso, que nada mais era do que a representação física do excesso de energia raiva represado no meu corpo.

Quando a caixa d’água de raiva ficou vazia, pude olhar para os sentimentos que me faziam falta e passei a encher o espaço com uma diversidade deles. Compaixão, tesão, alegria, tristeza, amor, e também raiva, mas desta vez, sem medo de ser abduzido por ela. A raiva passou a ser o meu combustível para mudança, uma raiva amorosa, rebelde, de querer o melhor para mim e para quem eu amo.

Ainda sinto medo de expressar minha raiva no dia a dia. Se eu disser o contrário estaria mentindo. A diferença é que hoje tenho uma consciência maior do poder desta emoção e das consequências de deixar de expressá-la. Aceitar a raiva que sinto me dá mais poder e autonomia para fazer as minhas escolhas. Está em minhas mãos agora focar este sentimento em coisas boas, para ter a força necessária para transformar o meu mundo a todo instante.

Confira a versão online do jornal “O Rebelde” em: http://issuu.com/namastepoa/docs/o_rebelde_4

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