O outro

pai-e-filho

Por Arno Duarte

Confesso, muita coisa aconteceu dentro de mim nos meus primeiros meses de paternidade adotiva. Por instinto, posso dizer, me tornei protetor e cuidador de uma pessoinha que passou a ser parte de mim. Somos um, somos nós, é mais vida na minha vida. E nisso também surgiram sentimentos dos quais eu não me orgulho muito.

A expressão “pai é quem cria”, você já deve ter ouvido, implica na existência de um outro pai, seja ele conhecido ou não – e isso é irrelevante, mas na minha cabeça havia sim um fantasma presente.

Eu sentia ciúmes de uma figura inexistente: “pô, eu estou criando ele, eu sou o pai”. Alimentei uma competição interna com o fantasma que só eu via, e ao invés de curar o sentimento, comecei a criar questionamentos em função de crenças que precisei revisitar.

Não quero ser o pai que cria, quero ser “o” pai.

Quem é o outro? Ele ou eu? Preciso ser melhor ou ser apenas eu? Quem eu quero ser? Tantas perguntas, nenhuma certeza. Uma dualidade invadia meus pensamentos constantemente.

Sorte que o tempo e a experiência me ajudaram compreender que eu nunca poderei ser o único pai do meu filho, e que isso também não significa que eu sou o outro.

Percebo hoje o quanto sou babão, repetindo para todo mundo “meu filho isso, meu filho aquilo”, orgulhoso, chato por vezes, fazendo de tudo pra estar sempre presente. Desculpe! É que me sinto completo e inspirado por aquele pequeno ser que me fornece pitadas de carinho diariamente. É impossível ser mais pai do que isso.

Não preciso competir com ninguém, seja de carne e osso, uma imagem, lembrança ou um ectoplasma.

Passei a valorizar mais a expressão “pai é quem ama”, pois, criar sem amor não acolhe nenhum sentido à paternidade.

E amar é fazer de tudo pra estar sempre presente, abraçar, dar bronca, brincar, estudar o tema junto, botar pra dormir, ouvir as pequenas histórias de descobertas e acompanhar o crescimento dele.

Tudo o que eu faço é tentar ser a melhor referência possível de pai, sendo apenas eu mesmo, independente de biologia ou carteira de identidade. A certidão definitiva de paternidade está registrada no cartório do coração, com carimbos de lembranças muito amorosas.

ARNO DUARTE, além de papai presente, é coach e consultor organizacional na Favoo Desenvolvimento Humano e empreendedor de negócios sociais. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.

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