Desconstruindo meu machismo – Parte 1

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Por Arno Duarte

Tenho exercitado o meu lugar de fala em relação a diversos temas, entre eles o feminismo. A experiência que posso compartilhar destes 41 anos de vida é como homem, e por mais que eu me esforce, será sempre impossível expressar como eu me comportaria em uma situação de preconceito, assédio ou discriminação ao feminino.

Optei por me restringir a falar e refletir sobre o meu papel social em relação à igualdade de gênero, sempre a partir do “meu quadrado”.

E é impressionante a mudança de lente que este posicionamento provoca.

Num primeiro momento fiquei surpreso com a quantidade de situações que passavam (e passam) diante dos meus olhos que ferem e desrespeitam mulheres há séculos e que eu não percebia, ou percebia, mas julgava serem de normais na nossa cultura. Ao viver na bolha do mundo branco masculino, é como se eu estivesse usando aquelas viseiras para cavalos, olhando apenas para frente, deixando de perceber o que acontecia logo ao meu lado.

A segunda etapa da mudança é a vergonha. Ao me dar conta de comportamentos que já tive, de pensamentos que por vezes estão enraizados em minha mente, chego a querer me esconder. Desde relembrar dias em que me achei o máximo por pagar as contas da casa ou quando cogitei que era uma mulher dirigindo o carro que fez a barbeiragem ao estacionar.

Agora, acredito estar numa terceira fase, num momento de descoberta de um mundo novo, de uma abertura de perspectiva, de procurar me aproximar ao máximo deste lugar e AGIR em direção a um posicionamento de igualdade, dentro dos meus recursos e responsabilidades, seja na vida pessoal ou profissional.

E para virar a chave e fazer a mudança interna é preciso abrir este espaço e admitir verdadeiramente como me sinto, penso e ajo muitas vezes nesse fluxo da cultura do machismo.

Me perguntei várias vezes sobre as consequências de admitir o machismo que ainda habita em mim: “o que vão pensar”, “como eu ainda posso ser assim…”, mas cheguei à conclusão de que a mudança necessariamente precisa passar por esta aceitação.

Não sou como eu gostaria, não aprendi a fazer diferente, mas quero muito chegar lá. Assim se constroem as pontes. Assim entendo que se constroem as mudanças genuínas.

E neste processo passei a rever a vida, resignificar minha relação com o feminino e comigo mesmo, afinal, sou um pedaço de mulher, fruto da carne de uma. Em minha memória genética, além da teimosia da dona Isabel, herdei também a empatia e sensibilidade para acolher o sentimento do outro.

Quero lutar junto.

Quero lutar junto com minhas amigas quando vivem situações de assédio.

Quero lutar junto com minhas colegas de trabalho e chefas quando combatem um abismo de desigualdades corporativas, quando se mantem firmes em seus postos conquistando respeito não apenas para si, mas para todas as mulheres do mundo profissional.

Quero lutar junto das minhas avós, tias, primas, sogra, cunhada quando procuram reconstruir o papel da mulher na família.

Quero lutar junto com minhas sobrinhas enquanto desabrocham e se revelam incríveis mulheres questionadoras da normalidade.

Quero lutar junto com minha irmã, quando bate o pé e banca sozinha o cuidado de suas florezinhas.

Quero lutar junto com minha pequena filha, sempre que ela precisar desafiar este mundo em transformação, apoiando suas decisões e posicionamentos quando quiser dar basta ao que não lhe fizer bem.

Quero lutar junto com minha esposa quando ela questiona os padrões e demonstra sua força, poder, sensibilidade e superação que tanto me inspiram a ser um companheiro melhor.

Quero lutar em memória a minha mãe, que foi uma guerreira, capaz de lidar sozinha por 70 anos com as mais complexas situações que as mulheres passam para garantirem seus direitos.

Quero lutar junto a todas as mulheres, pois esta luta também é minha, assim com deve ser de todos os homens.

Juntos temos possibilidade de recomeçar e construir uma cultura de igualdade de gênero.

O dia 8 de março é o dia internacional da mulher.
O dia 8 de março é o dia de admitir que ainda há algo de errado no nosso mundo interior, para que a mudança reverbere de dentro para fora.
O dia 8 de março é o dia para a lutar junto com o feminino.

Que todos os dias sejam 8 de março.

ARNO DUARTE, é coach e consultor organizacional na Favoo Desenvolvimento Humano e empreendedor de negócios sociais. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.

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