O voluntariado faz parte da essência do cuidado pra toda vida
Postado no 19 de março de 2026 Deixe um comentário
Desde a sua fundação, em 1984, a história da Casa de Saúde Menino Jesus de Praga foi construída pelas mãos e pelo coração de voluntários.
Durante praticamente quatro décadas, foram pessoas da comunidade que acolheram, cuidaram, organizaram, cozinharam, limparam, acompanharam e garantiram que crianças, adolescentes e adultos com deficiências graves tivessem um lugar seguro para viver com dignidade.
Muito antes da profissionalização da assistência em saúde, o cuidado direto com os acolhidos era realizado por voluntários. Foi esse compromisso coletivo que permitiu que a Casa existisse, crescesse e se tornasse referência no cuidado de longa permanência.
Nos últimos anos, a instituição passou por um importante processo de transformação. A gestão foi profissionalizada no início de 2023 e, ao longo dos últimos 8 a 10 anos, o cuidado direto com os acolhidos também foi estruturado com equipes técnicas especializadas, como técnicos de enfermagem, enfermeiros e profissionais de diferentes áreas da saúde.
Esse movimento foi fundamental para garantir maior segurança assistencial, estabilidade clínica e qualidade no cuidado prestado.
Com essa evolução, o papel do voluntariado também foi se transformando. Muitas pessoas passaram a contribuir em atividades de apoio essenciais, como organização de bazar, manutenção, jardinagem, arquivo, separação de materiais e diversas outras frentes que ajudam a sustentar o funcionamento da Casa.
Agora iniciamos um novo ciclo.
Estamos renovando o nosso Programa de Voluntariado para ampliar novamente a presença da comunidade no dia a dia dos acolhidos, especialmente em atividades de convivência, estímulo e experiências de vida.
Queremos potencializar ações como passeios, idas à praça, momentos lúdicos, atividades culturais e oportunidades de interação que promovam ainda mais qualidade de vida, vínculos e participação social.
Acreditamos que o cuidado especializado em saúde é essencial. Mas também sabemos que vida acontece nas relações, nos encontros e nas experiências compartilhadas.
Por isso, convidamos pessoas que desejam fazer parte dessa rede de cuidado a manifestarem interesse em atuar como voluntárias na Casa.
Se você tem vontade de contribuir com tempo, presença e sensibilidade, preencha o formulário e acompanhe a abertura das próximas oportunidades.
O voluntariado sempre fez parte da nossa história. Agora queremos que ele faça ainda mais parte do nosso futuro.
Link para inscrição: https://doe.amigosdacasa.org.br/programadevoluntariado
Cuidado pra toda vida: mais acolhidos, mais complexidade e menor mortalidade
Postado no 17 de março de 2026 Deixe um comentário

Na semana passada compartilhei um indicador importante sobre o trabalho da Casa de Saúde Menino Jesus de Praga: a redução das internações hospitalares dos nossos acolhidos. Hoje quero falar de outro tema que exige muita responsabilidade e transparência quando tratamos de serviços de cuidado de longa permanência: os óbitos.
Cuidamos de crianças, adolescentes e adultos com deficiências neurológicas e necessidades de saúde extremamente complexas, muitos deles após longos períodos de hospitalização ou em situação de abandono, ruptura de vínculos familiares ou vulnerabilidade social.
O acolhimento institucional existe justamente para garantir proteção e cuidado quando as famílias não podem ou não conseguem oferecer as condições necessárias, seja por abandono, maus-tratos ou pela própria complexidade dos cuidados exigidos.
Por isso, em instituições como a nossa, infelizmente os óbitos fazem parte da realidade do cuidado de longa permanência.
Mas o que realmente importa observar é como esses indicadores evoluem ao longo do tempo e o que eles revelam sobre a qualidade da assistência prestada.
Nos últimos anos temos investido fortemente no fortalecimento da assistência em saúde dentro da Casa: fortalecimento da equipe de enfermagem, fisioterapia respiratória 24 horas, maior cobertura médica e implantação de tecnologias de monitoramento clínico.
Esses avanços têm contribuído para maior estabilidade clínica dos acolhidos.
Os números ajudam a explicar isso.
Em 2023, a Casa registrou 35 acolhidos e 5 óbitos, uma taxa aproximada de 14%. Em 2024, o número de acolhidos quase dobrou, chegando a 63 pessoas, com 9 óbitos, mantendo uma taxa semelhante. Já em 2025, mesmo com 64 pessoas acolhidas, registramos 4 óbitos, reduzindo a taxa para cerca de 6%.
Ou seja, mesmo com mais acolhidos e casos cada vez mais complexos, conseguimos reduzir pela metade a taxa de mortalidade.
Isso não significa que o cuidado elimina os riscos inerentes a condições clínicas graves e crônicas. Mas indica que estamos conseguindo oferecer mais estabilidade, mais segurança assistencial e mais qualidade de cuidado dentro da própria Casa.
Mais do que acompanhar indicadores, nosso compromisso é garantir que cada pessoa acolhida tenha vida com dignidade enquanto estiver conosco.
Na Casa, o cuidado é construído a partir do que há de melhor em termos de equipe assistencial e multidisciplinar, estrutura física adequada, tecnologias de monitoramento clínico, equipamentos especializados e um ambiente preparado para promover convivência, estímulos e qualidade de vida. Também assumimos a responsabilidade de representar e defender os direitos dos acolhidos, assegurando acesso a políticas públicas e proteção social.
Esse cuidado permanece presente inclusive nos momentos mais difíceis. Quando ocorre um óbito, a instituição organiza e acompanha todos os procedimentos necessários, como velório e sepultamento, garantindo respeito, acolhimento e dignidade até o fim.
Cuidar de pessoas com necessidades de saúde extremamente complexas significa estar presente em todas as dimensões da vida e também no encerramento dela.
É isso que buscamos oferecer diariamente: cuidado para toda a vida enquanto cada acolhido estiver conosco. Esse é o sentido mais profundo do nosso trabalho.
Na próxima semana vou compartilhar outro indicador importante para ajudar a compreender melhor o impacto do trabalho da Casa.
Entre os 7% mais bem avaliados: uma experiência com a Brazil Conference
Postado no 12 de março de 2026 Deixe um comentário
No final do ano passado participei do processo seletivo do Programa de Embaixadores da Brazil Conference 2026. Foram mais de 600 pessoas inscritas de todo o Brasil, com histórias e projetos inspiradores. O processo teve três etapas e fiquei muito feliz em ter avançado até a terceira fase, integrando o grupo dos 7% de candidatos mais bem avaliados, algo que recebo como um reconhecimento muito especial da trajetória construída até aqui.
Para quem não conhece, a Brazil Conference é uma das maiores iniciativas de mobilização de lideranças brasileiras no mundo. Organizada por estudantes brasileiros da Harvard University e Massachusetts Institute of Technology, a conferência reúne todos os anos líderes de diferentes áreas para discutir caminhos para o futuro do Brasil e conectar pessoas que estão trabalhando para transformar o país.
O Programa de Embaixadores busca justamente identificar e fortalecer lideranças que estão gerando impacto real em suas comunidades.
Participar desse processo foi também um momento de olhar para a própria trajetória e perceber como diferentes caminhos vão se conectando ao longo da vida.
Minha jornada passou pelo mundo corporativo, pela mobilização social e hoje se expressa no trabalho que desenvolvemos na Casa de Saúde Menino Jesus de Praga, uma instituição que acolhe crianças, adolescentes e adultos com deficiências neurológicas e motoras graves e que vem se consolidando como uma referência nacional em cuidado, inovação e gestão no terceiro setor.
Mais do que um reconhecimento individual, vejo essa experiência como um sinal da importância crescente do terceiro setor brasileiro. Organizações sociais têm se tornado cada vez mais protagonistas na construção de soluções para desafios complexos do país, mobilizando pessoas, recursos e inovação para gerar impacto real.
Sigo muito motivado a continuar contribuindo para fortalecer esse ecossistema, conectando pessoas, organizações e iniciativas que acreditam que cuidar também é uma forma de transformar o Brasil.
Meu agradecimento à equipe da Brazil Conference pela oportunidade de participar desse processo e por valorizar lideranças comprometidas com impacto social. Seguimos!
Cuidado, tecnologia e gestão: o que está reduzindo internações hospitalares na Casa de Saúde Menino Jesus de Praga
Postado no 10 de março de 2026 Deixe um comentário
Ao longo das próximas semanas vou compartilhar alguns indicadores importantes da Casa de Saúde Menino Jesus de Praga, para ajudar a explicar melhor o trabalho que realizamos. Começo por um dos indicadores mais importantes do nosso modelo de cuidado: as internações hospitalares dos acolhidos.
Cuidamos de crianças, adolescentes e adultos com deficiências neurológicas e necessidades de saúde complexas, muitos deles após longos períodos de hospitalização ou sem condições de receber cuidado adequado em suas famílias.
Quando um acolhido precisa ser internado, isso gera impactos em várias dimensões:
1) para a pessoa acolhida, significa sair de um ambiente já adaptado às suas necessidades e enfrentar novamente um ambiente hospitalar;
2) para a Casa, cada internação exige a mobilização de cuidadores acompanhando o acolhido 24 horas por dia no hospital, garantindo continuidade do cuidado e segurança, porém, gerando custos;
3) e para o sistema de saúde, significa ocupação de leitos hospitalares e muitas vezes de UTI, que poderiam estar disponíveis para outras pessoas.
Por isso, um dos focos da Casa nos últimos anos foi estabilizar a saúde dos acolhidos dentro da própria instituição. Em 2025 implementamos melhorias importantes na assistência:
• fisioterapia respiratória 24 horas;
• ampliação da cobertura médica e novas especialidades;
• fortalecimento da equipe de enfermagem;
• capacitação das lideranças;
• investimento em monitores e ventiladores clínicos;
• implantação de uma central de monitoramento remoto;
O resultado aparece em um indicador muito claro: em 2024 registramos 907 dias de internação hospitalar entre nossos acolhidos. Em 2025 esse número caiu para 246 dias! Uma redução de aproximadamente 73%. Nos dois primeiros meses de 2026 registramos 30 dias de internação, mantendo a tendência de redução proporcional ao período.
Isso significa:
• mais estabilidade clínica
• menos intercorrências graves
• mais qualidade de vida para os acolhidos
• menos pressão sobre o sistema hospitalar
No fim das contas, reduzir internações não é apenas um número. É garantir que pessoas extremamente vulneráveis possam viver com mais segurança, mais conforto e dignidade. E também mostrar que modelos especializados de cuidado podem ajudar todo o sistema de saúde a funcionar melhor.
Nos próximos textos vou compartilhar outros indicadores importantes do trabalho dessa Casa que tem uma equipe e voluntários maravilhosos.
Crédito fotos: Carlos Macedo
A Aura da Liderança
Postado no 6 de dezembro de 2025 Deixe um comentário
Às vezes, a maior virada de uma carreira acontece quando alguém descobre que liderança não é um cargo, e sim um campo invisível que se expande ao nosso redor.
Esta semana, durante uma conversa de alinhamento, vivi uma situação que me fez refletir sobre como compreendemos e praticamos a liderança.
Conversava com uma profissional em sua primeira experiência formal como líder, enfrentando inseguranças naturais de quem está descobrindo suas próprias fronteiras. Em determinado momento, sugeri que ela “expandisse o espaço” que ocupa como liderança. Na mesma hora, percebi que, para ela, esse “espaço” tinha ganhado outro significado: novos departamentos, novas áreas, novas responsabilidades formais.
Foi então que expliquei algo que talvez pareça simples, mas que raramente é dito:
expandir o espaço da liderança não é necessariamente assumir mais estruturas, mas sim ampliar a sua “aura” como liderança.
Essa aura é invisível, mas profundamente perceptível. Ela se manifesta quando uma pessoa:
• apoia seus pares sem precisar ser solicitada;
• se interessa genuinamente pelo que os outros fazem;
• oferece referências, escuta, clareza;
• torna-se ponto de confiança, mesmo sem estar hierarquicamente acima;
• conduz pelo exemplo, não pelo cargo.
Liderança, nesse sentido, deixa de ser um título e passa a ser um campo de influência, um espaço que se expande à medida em que a pessoa se posiciona com segurança, generosidade, responsabilidade e presença.
É assim que nascem líderes que inspiram, não porque ocupam grandes funções, mas porque criam um ambiente ao redor de si onde outros conseguem crescer, se organizar, aprender e pertencer.
A primeira liderança nem sempre está no organograma. Muitas vezes, ela começa exatamente assim: na decisão de ampliar a própria aura.
Liderar é o exercício de escutar a todos e, mesmo assim, saber que não será possível agradar a todos
Postado no 3 de novembro de 2025 Deixe um comentário
Outro dia, em uma palestra sobre carreiras, uma jovem me perguntou qual havia sido o maior desafio da minha trajetória. Pensei por alguns segundos e respondi: liderar…
Não porque falte preparo, vontade ou propósito, mas porque a liderança é, por essência, um lugar solitário. Não pela ausência de pessoas, mas pela necessidade constante de tomar decisões.
Quem lidera precisa escolher caminhos em meio à complexidade, à urgência e às inúmeras vozes que pedem atenção, cada uma com sua razão, sua expectativa e sua verdade.
Um amigo me disse: “Não podemos olhar para trás e julgar as decisões de quem estava liderando, porque no futuro, olharão para trás e julgarão as nossas.”
Essa frase resume bem o paradoxo da liderança. As decisões são sempre tomadas com base no que se sabe e no que se tem naquele momento. O tempo, porém, muda as circunstâncias, revela novas perspectivas e traz entendimentos que não estavam disponíveis quando as escolhas precisavam ser feitas.
Com o passar dos dias, é natural que as pessoas vejam as decisões de outro ângulo. Essa é a beleza e também o desafio de liderar: cada escolha pertence ao seu tempo, mas os seus efeitos pertencem ao futuro.
Quem lidera precisa aceitar essa solidão: a de ser compreendido apenas em parte, e talvez só com o tempo. A liderança não é sobre agradar, é sobre sustentar o melhor possível diante do que se tem, guiado por propósito, escuta e coerência.
Nem sempre as pessoas concordarão. Nem sempre entenderão. E às vezes a gente também vai errar.
Mas liderar é isso: decidir com o coração e a razão alinhados, sabendo que o julgamento virá de quem não estava lá. E que tudo bem.
Porque o papel de quem lidera não é ser aplaudido, é servir da melhor forma possível, no tempo que lhe cabe.
E quem lidera com essa consciência não busca estar certo o tempo todo, busca estar presente. Presente para escutar, ponderar, decidir e seguir, mesmo quando o caminho é solitário e incerto.
Liderar é cuidar de todos
Postado no 26 de março de 2025 Deixe um comentário
As organizações esperam que o líder seja um guia, alguém que inspira e orienta. Mas quando o ego assume o controle, buscando protagonismo e reconhecimento, ele enfraquece o verdadeiro sentido da liderança. Em um mundo cada vez mais dinâmico, liderar exige cuidar das pessoas, criando um ambiente onde elas possam crescer, contribuir e evoluir juntas.
O papel do líder é complexo e, muitas vezes, distorcido por modelos hierárquicos tradicionais. Desde os primeiros exércitos, a liderança foi associada ao poder, à proteção e à defesa. No entanto, esse poder muitas vezes se impõe pelo medo e pelo controle, enquanto as pessoas anseiam por crescimento, desenvolvimento e colaboração. Algo está errado.
Muito se fala sobre construir ambientes mais humanos, mas isso não é possível quando há relações de superioridade e distanciamento. O líder que realmente cuida não impõe hierarquias rígidas, mas incentiva a colaboração, valoriza a diversidade de pensamentos e reconhece o potencial de cada um.
A verdadeira transformação da liderança está na simplicidade do cuidado. Liderar não é ser melhor ou mais poderoso, mas sim respeitar, fortalecer e inspirar as pessoas a darem o seu melhor. Esse conceito está alinhado a modelos de gestão modernos, que priorizam ambientes colaborativos, inteligência coletiva e uma cultura de confiança e aprendizado.
Criar uma cultura de cuidado significa garantir que cada pessoa tenha espaço para se desenvolver, para errar e aprender, para contribuir de maneira autêntica. O verdadeiro líder constrói um ambiente de confiança e abertura, permitindo que todos se expressem e colaborem. Ele não se coloca no centro, mas se torna um guardião do equilíbrio, garantindo que cada um tenha espaço para crescer e desempenhar seu papel.
É claro que o líder continua tendo responsabilidades e desafios a resolver. Mas a busca por soluções deve ser um exercício coletivo, não uma carga solitária. Liderar é cuidar do ambiente, das relações, das pessoas e dos processos, garantindo que todos possam avançar juntos.
O futuro da liderança não está na imposição, mas no cuidado. Cuidar significa escutar, incentivar, abrir espaço para o diálogo e reconhecer o valor de cada pessoa. Liderar é dar suporte para que os outros cresçam, é enxergar o potencial onde ninguém mais vê, é criar um ambiente onde todos se sintam valorizados e acolhidos.
Artigo publicado no Jornal do Comércio em 26 de março de 2025.
Amores imperfeitos (versão 2018)
Postado no 27 de março de 2018 Deixe um comentário

Por Arno Duarte
Éramos dois. Ela, uma mulher gata, madura, segura de si, teimosa, mas carinhosa. Eu, um cara normal, bonito talvez, inseguro, cheio de manias, mas com boas intenções. Um amor imperfeito.
E mesmo não sendo perfeito, escolhemos ser pai e mãe do Cadu e da Vitória, pois pais e mães foram feitos para errar, para serem ultrapassados, para ficarem com vergonha deles na entrada da escola.
Não contentes, queremos mudar a ordem natural das coisas, fazer tudo correto, ter a resposta certa, atender no prazo, superar as expectativas, correr contra o relógio, ser o melhor pai e mãe do mundo e ainda continuar os mesmos namorados de antigamente. Mas nada será como antes.
Quando já não somos só dois, nem só três, a vida de amantes precisa ser reaprendida: os dias, as noites, as madrugadas, o trabalho, as folgas, as férias. Tem sempre um ponto de interrogação na frase. Às vezes umas três exclamações, mas nunca um ponto final (trocamos por ponto e vírgula).
As contas aumentam, as horas de sono diminuem, e a correria para médico, escola, tema, mamadeira, fralda, futsal, mochila, merenda, soninho, almoço, janta, lanchinho e atenção 24×7 consomem as baterias da gente.
Os pequenos sonhos de onze e um ano e meio nos desafiam a lembrar de viver sempre no amor – talvez não mais tão romântico como o de antigamente -, mas num amor novo, de discussões, de parceria, de pegar junto, de descansar juntos, de chorar e sorrir da loucura que a vida a dois, três e quatro se transformou.
Nosso amor imperfeito segue evoluindo, conscientes de que a única certeza é que o amanhã sempre chegará cheio de novidades, e que para permanecermos nos amando vamos precisar nos transformar todos os dias, aceitando nossos defeitos e limites, sendo apenas humanos.
Somos e sempre seremos nós mesmos.
Apaixonadamente imperfeitos.
O texto original “Amores imperfeitos” é de 22 de março de 2016 e precisou ser atualizado em função das novas aventuras do casal 😉
ARNO DUARTE, além de papai presente, é coach, consultor organizacional e empreendedor de negócios sociais. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.
Gestação expressa
Postado no 21 de dezembro de 2017 Deixe um comentário

Por Arno Duarte
Telefone toca e é um número privado. Estou trabalhando, atucanado, correria, mas atendo.
– “Alou, aqui é do juizado. Vocês ainda têm interesse na adoção”? – pergunta a voz do outro lado.
Pausa, frio na barriga, arrepio, tontura, fico atônito e a vida passa diante dos meus olhos. Segundos parecem horas e lembro que preciso voltar a respirar.
– “Sim, sim, claro. Faz cinco anos que estamos esperando! E agora o que fazemos”? – pergunto num susto.
– “É só aguardar mais um pouquinho, a tarde eu ligo de volta” – responde a voz em tom de suspense.
E a tarde leva anos para chegar, tanto que ligamos de volta para saber mais detalhes. Eu fiquei tão pasmo que não perguntei nada na primeira ligação. Qual a idade? É menino ou menina? Quando podemos pegar ela ou ele? Qual o nome?
– “Falamos na quinta-feira então” – diz com calma a assistente social.
Só ela parece calma, pois nós estamos ansiosos. Serão dois dias a mais esperando. Se horas são anos, dias são eras inteiras!
Na quinta soubemos que era menina, de 1 ano e 2 meses e que em três semanas poderíamos fazer a adaptação, ainda na casa lar, com visitas diárias de uma hora e pouquinho, para nos conhecermos, dar aquele cheiro, pegar no colo e afofar.
Também podemos começar a comprar as “coisinhas” necessárias para receber um bebê em casa. Entenda-se por coisinhas apenas e nada menos do que tudo: fraldas, chupeta, berço, roupas, mamadeira, brinquedos, lenços umedecidos, cadeira do papá, cadeira para o carro, carrinho de passeio, sapatos, arrumar um quarto e mais fraldas. Dava para adicionar à lista um carro maior e uma casa com três quartos e pátio, mas isso terá que esperar.
GESTAÇÃO BIOLÓGICA X GESTAÇÃO ADOTIVA
Os cinco anos que aguardamos na fila da adoção dá pra comparar com o tempo que um casal leva tentando engravidar. Tempo carregado de ansiedade, espera, tentativas, resignação com a espera e finalmente realização!
Já o dia em que me ligaram do juizado é como o dia em que o casal desconfia que engravidou. Aquele quando a menstruação atrasa. A gente quase não acredita, mas dá um pavor misturado com alegria.
O dia em que conversamos com a assistente social é igual ao dia em que o casal faz o teste de gravidez e vai ao médico entender melhor a situação. Agora já era. Virou realidade o sonho!
E finalmente, as três semanas comprando coisinhas para receber o bebê são os nove meses de gestação, tempo que o casal que tem um filho biológico tem para se preparar.
Nós tivemos só três semanas! Adicione nesse caldeirão todas as questões emocionais envolvidas, preparação psicológica do pai, da mãe, do irmão mais velho, dos avós e até do cachorro. Sim, pois é uma mudança de impacto na vida de todos e que precisa ser processada rapidamente!
E tem o dia em que a bebê vem para casa de vez. Assim como uma recém-saída da maternidade, esta vem da casa lar. A mudança também acontece para ela, que precisa se sentir acolhida no novo ambiente. Como o bebê que troca o quentinho da placenta e deixa de ouvir os batimentos do coração da mãe, nossa bebê precisa se acostumar com novos cheiros, novos sabores, um novo espaço pra se movimentar e começar a expandir seu corpo e sua alma.
A partir daí, a vida em família segue sua evolução biológica. Abraços, beijos, carinhos, brincadeiras, choros, birras, manhas. Tudo regado com o amor de pais muito apaixonados, agora multiplicando tudo por dois: Cadu e Vitória <3.
ARNO DUARTE, além de papai presente, é coach e consultor organizacional na Favoo Desenvolvimento Humano e empreendedor de negócios sociais. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.
Quem são os pais dos filhos da sociedade?
Postado no 10 de outubro de 2017 1 Comentário

/// Uma reflexão sobre o papel social de pessoas e organizações em relação às crianças e adolescentes. \\\
Por Arno Duarte
Eu fico impressionado com as histórias de super-heróis, pois todos têm problemas de alguma ordem com os pais: Batman: teve os pais assassinados; Flash: teve a mãe assassinada e o pai preso; Homem Aranha: pais morreram num acidente de avião; Mulher Maravilha: não conheceu o pai; Super Homem: os pais morreram na explosão de um planeta.
Interessante é que todos foram acolhidos por pessoas que transmitiram valores e os ajudaram a se tornarem referências positivas para seus mundos: Mordomo Alfred; Detetive Joe West; Tia May; Comunidade das Amazonas; Martha e Jonathan Kent.
Mas as histórias de alguns super-heróis nem sempre são como nos quadrinhos.
Existem caras como o João, que pode ser um personagem fictício, ou também poderia ser real. Ele está com 18 anos, se reveza a dormir na casa de amigos, pois recém deixou a instituição de acolhimento onde morou desde os sete anos.
Ele já foi um bebê fofinho, mas quando chegou ao abrigo já havia passado da idade preferida pelos pretendentes à adoção, e lá ficou mais de dez anos.
Assim como os outros super-heróis, ele não teve os pais biológicos presentes. Não sabe o que aconteceu. Lembra apenas de passar por várias casas e de nunca entender o que era o vazio que sentia por dentro.
Um vazio que foi preenchido por sentimentos confusos, amizades duvidosas, por aventuras em busca de dinheiro rápido e fugas da realidade. Era como conseguia suportar o abandono e a ausência de sentido na vida. Era como conseguia sobreviver um dia de cada vez.
E pelo caminho ele encontrou a Clara e o Carlos, empresários, que também poderiam ser executivos bem-sucedidos de alguma empresa, ou apenas um casal de namorados que estavam cuidando das suas próprias vidas.
O João abordou eles em uma sinaleira, bateu no vidro, assustando o casal dentro do carro. O João só precisava de um dinheiro para passar a semana, ajuda para comprar alguma comida.
Nos pensamentos de Clara e Carlos, além de passarem suas vidas inteiras num milésimo de segundo, eles se perguntam: “de onde saiu este cara?”
Pois este cara e outros tantos vem de uma situação de abandono, não apenas dos pais biológicos, mas da sociedade em geral.
Qual a nossa responsabilidade enquanto sociedade em relação as crianças e jovens que vivem em casas de acolhimento ou que cumprem medidas socioeducativas?
Quando nós, sociedade, delegamos a responsabilidade para o poder público e ONGs cuidarem de crianças e jovens em situação de abandono ou que cometeram delitos, somos como aquele pai que paga a pensão em dia, mas desconsidera que o que mais importa no desenvolvimento dos filhos é a transmissão de valores.
Assim como pais que trabalham demais e delegam a criação dos filhos para uma babá, estamos fazendo o mesmo com as crianças das casas de acolhimento. Seguimos nossas vidas trabalhando bastante e deixamos para o poder público dar casa e comida, e esquecemos que amor e carinho não se compra com trabalho.
Crianças e jovens que vivem no sistema de acolhimento institucional ou socioeducativo não precisam só do dinheiro dos nossos impostos. Elas também precisam saber que a vida delas é importante, para só assim darem valor às vidas delas e as dos outros.
Lembra que de alguma forma eles já foram abandonados ou maltratados. Por algum motivo eles acham que não foram importantes para alguém, e isso causa uma dor sem comparação, coisa que talvez a gente não consiga perceber.
E quando deixamos de nos envolver emocionalmente com este mundo, estamos semeando também um futuro em que a emoção não é um valor. O dinheiro é o valor que transmitimos. É esse o valor que queremos transmitir?
Além de desigualdade social, estamos gerando desigualdade emocional.
Muitos falam sobre como vamos mudar o mundo, no futuro, e como seria se pudéssemos voltar no tempo para mudar a história do João?
Numa linha do tempo alternativa o João completou 18 anos. Ele foi abandonado aos sete anos, mas neste novo futuro, poder público, ONGs, pessoas físicas e pessoas jurídicas estão engajadas e se apoiam mutuamente para ser a diferença na vida de criança como o João.
A principal evolução, nessa nova linha do tempo, está na compreensão do papel social que cada um tem na construção de um futuro acolhedor para todos.
Pessoas físicas e pessoas jurídicas entenderam que precisavam ter um papel social mais ativo. Papel social é o envolvimento das pessoas com as pessoas. É o envolvimento emocional, a transmissão de valores.
As doações seguem sendo importantes para manter as instituições de acolhimento e de formação socioeducativa, mas o envolvimento humano precisou evoluir.
E nesse novo futuro o João foi muitas vezes acolhido e ouvido por funcionários de empresas que os liberavam algumas horas por semana para a prática de trabalho voluntário nas instituições.
Depois de algum tempo o João entrou em um programa de apadrinhamento afetivo, onde conheceu padrinhos muito legais que o aconselharam em diversos momentos de sua vida.
O João também foi adotado por uma família muito simples, mas que tinha muito amor para oferecer, mesmo para uma criança mais “velha”, que já não era um bebê.
Aos poucos João foi se aproximando do mundo do trabalho, participou de um programa de aprendizagem, fortemente apoiado por empresas, e o melhor: recebeu orientação de profissionais destas empresas sobre as profissões e como poderia construir um futuro brilhante. A aprendizagem para estas empresas era muito mais do que cumprir a cota exigida pela lei.
Por fim, foi contratado pela empresa da Clara e do Carlos, que como empresários que entendem seu papel social, tem um programa de contratação e desenvolvimento de jovens SEM EXPERIÊNCIA vindos da aprendizagem.
A Clara e o Carlos sabem que estão contribuindo para a construção de um futuro melhor, não só para os jovens, mas para eles mesmos! A Clara e o Carlos também ajudaram a mudar os seus próprios futuros.
E a pergunta que eu quero deixar com toda essa história é: qual o teu papel social em relação aos filhos da sociedade?
O tempo para as mudanças é hoje. O futuro será consequência.
NÓS SOMOS OS SUPER HERÓIS QUE PODEM MUDAR O MUNDO AGORA. Temos muitos poderes de transformação, basta colocar eles em prática pensando no futuro que queremos.
(Texto de Arno Duarte, da talk no evento “Como Podemos Mudar o Mundo Juntos”, em 04/10/2017)
ARNO DUARTE, além de papai presente, é coach e consultor organizacional na Favoo Desenvolvimento Humano e empreendedor de negócios sociais. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.
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Arno Duarte 






